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Depois de cinco anos de Psicologia, em Lorena, Vale do Paraíba, especializei-me em "Psicoterapia Comportamental", no "Sedes Sapientiae", PUC de São Paulo. Tive meu consultório em Taubaté, em sociedade com outras colegas minhas, e foi como psicóloga que, vivendo um momento de conscientização e emancipação política, morei em Moçambique, África, durante três anos, como "Cooperante da Revolução Moçambicana".
Mas, voltando à escolha de uma carreira a seguir, naquela época, música não era profissão e sim, um complemento da boa formação educacional de uma pessoa, principalmente, de futuras moças casadoiras, tal como eu era. Então, tudo o que sei de música, se fez informal e paralelamente à minha vida acadêmica, como um "hobby". Diga-se de passagem, um "hobby" levado a sério que adorava praticar, que me fascinava, me alimentava, me fazia sonhar, arrepiar, transcender meu momento presente, ultrapassando-o em tempo e espaço.
Estudei piano desde os meus seis anos de idade. Sempre com professoras particulares. Minha família morava aqui em São Paulo, cidade aliás onde nasci (sou paulistana!!!) e minha primeira professora foi minha tia, Maria Eliza de Figueiredo Bologna, irmã do meu pai. Aos sete anos, estudava piano todos os dias, de uma a três horas por dia, com aulas semanais. Nos finais de ano, todos nós alunos, nos apresentávamos em festivas audições públicas, para exibirmos os avanços técnicos e musicais que havíamos conquistado. Eu ficava sempre nervosa na minha vez de subir ao palco. Minhas mãos suavam e ficavam frias. Mas assim que começava a tocar, esquecia que havia um público na minha frente; a música que saia dos meus dedos, falava mais forte. Até hoje, sinto o mesmo "frisson" ao entrar num palco, mas é assim mesmo com todo mundo e jamais deixará de sê-lo.
Aos dezoito anos, parei de estudar piano porque, já na Faculdade de Psicologia, não tinha mais tempo para "hobbyes". Meus pais mudaram-se para Vitória, Espírito Santo e eu passei a morar no fantástico pensionato das freiras salesianas do "Instituto Santa Tereza", juntamente com mais umas trinta garotas de todo o Brasil. Eu era estudiosíssima, mas me lembro que meus momentos de lazer eram preenchidos com muita cantoria. Eu cantava com minhas amigas, principalmente, música popular brasileira. Com elas aprendi a tocar violão e, sabendo as principais posições, me acompanhava em quase todos os "Hits" do momento.
Fora o estudo formal de piano e da aprendizagem espontânea de flauta doce e violão, vivi toda a minha infância e minha adolescência num ambiente carregado de música. Acredito que foi neste ambiente fértil de experiências musicais informais, impregnado da melhor emoção familiar, que minha sensibilidade e gosto pela música se sedimentaram e afloraram. Eu adorava ouvir música. Meu pai sempre nos fez ouvir de tudo. Desde samba, rock, até óperas, concertos, sinfonias, obras corais, música francesa (porque minha mãe era francesa), pop, étnica e por aí vai. Minha mãe cantava muito! Acompanhava-se ao piano, cantando "Sansão e Dalila", músicas de filmes, músicas populares francesas... E eu sempre ficava escutando ou cantando junto com ela, quando o refrão pedia. Também nas escolas que estudei, cantávamos muito. Tudo era motivo para ser comemorado com muitas canções. O canto sempre foi o ponto alto das festas escolares.
Ao longo da minha juventude, também participei de excelentes corais e, com eles realizei trabalhos inesquecíveis que me marcaram para sempre. A espetacular experiência de cantar em corais, também serviu para me formar musicalmente. O canto, pouco a pouco, passou a ser mais importante para mim do que o piano. Porém, ainda não me via como solista; apenas como integrante de pequenos grupos vocais e de corais. Mas quando entrei no "Coral Luther King", uma modificação profunda começou a se processar na minha vida: descobri que podia ser solista. Eu tinha voz para ser solista!
Passei a participar de bandas e grupos e cantava música popular na noite paulistana. Minha vida profissional de cantora lírica começou tarde... Antes dela fiz muitas coisas, dei muitas voltas. Quando enfim, mais amadurecida, olhei para o que realmente me dava prazer nesta vida e resolvi abraçar os meus dons, comecei a estudar canto erudito pra valer. Procurei por D. Leilah Farah, a mestra de todos os mestres, que me ensinou tudo a respeito de emissão vocal, tal como pouquíssimos no mundo sabem fazer!
Com o seu amparo técnico, inscrevi-me no "I Concurso Eldorado de Música", em 1985. Fui a quarta colocada entre seis músicos finalistas e a única cantora dentre eles! A transformação, dentro de mim, já estava pronta para assenhorar-se da minha vida e direcioná-la na carreira de cantora lírica. Só faltava uma chance para ela se oficializar. Esta chance eu ganhei de presente: a ópera "Carmen" de Georges Bizet, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 1987.
De um dia para outro, deixei de ser uma cantora paulistana e me tornei uma cantora brasileira que se apresentava ao lado de uma renomada norte-americana. E as inevitáveis comparações da mídia me destacaram como uma artista de qualidade superior. A partir desse acontecimento marcante, não parei mais de cantar. Assumi, definitivamente, a carreira de cantora lírica.
O que eu sou agora é a somatória de tudo o que fiz, de tudo o que vivi. Nada foi inútil ou perda de tempo. Tudo teve que ser. Tudo me formou. Hoje, amando mais do que nunca minha profissão, continuo cantando muito, criando, estudando, pesquisando, crescendo e exercendo minha cidadania, sempre com a música ao meu lado.